Entry: Paulo Cesar Scherer 30.12.08



Texto criado por mim, para leitura na despedida de meu pai (Paulo Cesar Scherer), que encontrou a paz no dia 28 de novembro de 2008. Em nome da "família Sander Scherer".

"A verdadeira dimensão de um homem vem do modo como ele trata quem não pode fazer nada por ele"


Eu tive algumas demoras pra descobrir o pai que tinha. Muitos valores dele eu percebi só quando outras pessoas me contavam algum caso em que ele era protagonista.

Uma vez eu estava comprando pão e alguém reconheceu o rosto do pai em mim. E começou a me falar do quanto gostava do Paulo. Disse que achava ele muito simpático e gentil. Disse que dele sempre recebeu uma atenção que as outras pessoas do dia-a-dia esquecem de dar. Esta pessoa o conhecia dos acasos, de se cruzarem na rua, de curtos diálogos aqui e ali.


Depois desta, muitas outras pessoas me pararam nas ruas e falaram do pai.

Algumas contavam que na Sander ele era um patrão que batalhou muito pela dignidade dos funcionãrios. Não só através de seus conhecimentos em Medicina do Trabalho, mas também incentivando e ajudando, através da firma, os funcionários que quisessem estudar, desde a alfabetização até cursos técnicos e Ensino Superior.


Se muitas pessoas já vieram me contar do quanto o pai ajudou na vida de dezenas de funcion�rios, maior ainda � o n�mero de pacientes, colegas de Medicina e funcion�rios do Centro M�dico que me testemunharam a intensa e fraterna dedica��o do Dr. Paulo. "O teu pai sempre atende os pacientes no hor�rio marcado", disse um colega de d�cadas de trabalho. E dum paciente ouvi: "Eu passei por tr�s m�dicos sem que nenhuma descobrisse o meu problema. At� que consultei com o Paulo. Ele foi o �nico que me examinou me tocando com as m�os, e assim ele descobriu minha doen�a e me curou".


A Medicina era a voca��o �bvia pra este ser humano que trazia uma espont�nea vontade de ajudar as pessoas com quem convivia.


Ao final da �ltima longa conversa que tivemos, o pai, j� muito enfraquecido, me instruiu, mais uma vez, alguns dos valores que nortearam sua vida:

-- Tem que ser honesto, com dignidade. Tratar as pessoas o melhor poss�vel e sempre ajudar quem a gente puder, -- ele me disse.

Falar isto � f�cil, fazer � bem dif�cil. Mas muita tamb�m foram as pessoas que, ao longo da minha vida, me afirmaram que o pai era a pessoa mais correta e honesta que conheciam.


O pai carregou no peito muita compaix�o �s pessoas e, por que n�o dizer, �s plantas e aos animais. Acho que a esta �nsia de ajudar com tamanha compaix�o podemos chamar de amor. Onde ele ajudou, ele amou.


Nos �ltimos anos eu queria muito que o pai reduzisse o ritmo de trabalho e fosse, junto com a m�e, "aproveitar a vida". Faz poucos meses que descobri que ele vivia muito mais do que eu imaginava.

Ele amou intensamente tudo o que fez. Ele amava ir pra f�brica, porque l� batalhava como poucos o sustento da nossa fam�lia e, com a mesma dedica��o, o sustendo dos funcion�rios.

Ele amava sentir que um paciente passou a viver melhor com o tratamento realizado.

E ele amava toda aquele infinidade de pequenas arruma��es que eternamente fazia na chacra. Este era e � nosso lugar de cultivar o companheirismo e a comunh�o com a natureza, em especial com os p�ssaros, que cantavam durante os passeios que ele dava pelos matos da Lomba. (Ali�s, acho que era de saudade da chacra que ele �s vezes assobiava dormindo no hospital, sonhando com uma das maiores realiza��es de sua vida. Um sonho que ele viveu intensamente com a fam�lia e amigos).

N�s, filhos, sempre soubemos que a Lomba (s�tio) fez muita diferen�a na nossa vida, principalmente na inf�ncia. Um lugar m�gico, que ganhamos dos pais e est� muito presente na nossa personalidade.


O chimarr�o que o pai me ensinou a fazer tom�vamos nos curtindo no calor do fog�o � lenha. Ali o n�cleo familiar ganhava corpo, cheiro e era percebido como algo maravilhoso. E neste santu�rio n�s convivemos com os mais queridos familiares e os mais fi�is amigos � tanto os amigos que levamos pra l� quanto os que j� estavam l� e se tornaram vizinhos.


E, como na chacra, o pai semeou amizades por tantos lugares e olhares que cruzou. Amigo dos amigos dos filhos, amigo dos amigos da esposa e apaixonado pelos companheiros com quem cada um dos filhos forma hoje um casal.

Amigo dos colegas, funcion�rios e de pessoas que contratava para trabalhos tempor�rios. Muito amigo da pessoa que nem ele nem ningu�m da fam�lia consegue chamar de empregada: n�s preferimos Dinda.

E foi depois da visita dela que eu e o pai conversamos sobre a alegria que � estarmos rodeados de pessoas maravilhosas. E conclu�mos que isto � reflexo dos valores que n�s temos, semeamos e colhemos.


De muitas pessoas ouvi a frase "Teu pai, o Tio Paulo, � como um pai pra mim". E n�s, filhos, temos amigos para quem nossa fam�lia � o segundo lar. Esta nossa conviv�ncia risonha e franca com os amigos era um dos maiores prazeres do pai. Eram os momentos de compartilhar com outras pessoas a batalhada e bela fam�lia que ele construiu junto com a alma g�mea que ele teve a felicidade de encontrar.

Esta fam�lia que eles moldaram. A fam�lia que ele ganhou de ber�o e a que ganhou no casamento eram, afinal, a sua paix�o di�ria, sua preocupa��o e orgulho a cada minuto que viveu.

E bota viveu nisso! Viveu, muitas vezes e sempre bem acompanhado, como um her�i pros amigos e familiares, mas em especial pros filhos.

E foi lutando assim, muito, que ele passou todo este ano que j� vai tarde. Uma longa, comovente e impressionante recupera��o da cirurgia. A imagem mais linda que tenho dele � da cara de crian�a faceira que ele fez quando, com incentivo dos filhos, se encorajou e tomou o primeiro gole d�gua com o novo es�fago.

E de l� pra c� foi muita luta. Eu cheguei a escrever por a� que tanta chuva que anda assolando o Sul do pa�s � das choradeiras de arrependimento que algum deus est� sentindo por ter deixado acontecer o sofrimento de algu�m t�o bom. Talvez por pura falta de aten��o.


Se minha brincadeira estava certa ou n�o, s� saberemos noutra vida. Mas o que sabemos agora � que este Ser Humano que hoje se despede � um exemplo de dedica��o � vida, a sua e a dos outros. Um grande amigo que viveu intensamente e batalhou muito, at� o �ltimo instante, quando sua vida se transformou e ele se despediu do seu corpo de maneira tranq�ila e acalentadora. E isto � um grande motivo pra sorrirmos.


   6 comments

Scheila
April 11, 2011   12:26 AM PDT
 
Oi...
Trabalhei com seu pai, na poca do Centro Mdico, e realmente ele foi uma pessoa incrvel, um ser humana sem igual, connheci poucas pessoas to amadas como ele, com certeza est num lugar maravilhoso, sua altura.
carolinda
November 21, 2009   07:51 PM PST
 
No s um bom motivo pra sorrirmos, quanto um bom motivo pra percebermos que s h lucro em sermos bons com os outros.
"Minha religio muito simples, minha religio a bondade". como dizia dalai lama.
Cy
February 16, 2009   09:53 PM PST
 
Eu tenho a maior sorte do filho desse cara incrvel ser meu amigo :)
Janana Wadenphul
January 29, 2009   09:01 AM PST
 
Bah Xih!

Nem sadia do ocorrido... Meus sinceros sentimentos. Nem sei o que dizer. Pena que soube to tarde, espero ter tido muito mais fora nesse exato momento.

Te adoro!
Cassi
January 22, 2009   08:13 PM PST
 
A coisa mais linda que li nos ultimos tempos.
bjus meu querido
Translcida
January 8, 2009   03:01 AM PST
 
E o que seria de mim tentando achar um no-senso no mundo se no fossem os seres que ainda conseguem mostrar sentido no sentir o mundo.

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